Quem sou eu

"On a wire between will and what will be" (Trecho da música "Maniac" do filme "Flashdance")

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Soleil

O pôr-do-sol queimava o céu que estava nublado. E cada nuvem era uma labareda. O mar também estava incendiando e o balanço das vagas tinha o ritmo do balanço das chamas de uma grande fogueira.
Tudo estava repleto dessa cor ígnea, mas não havia calor. Pelo contrário, o que havia era uma grande sensação de frescor produzida talvez pela brisa que semeava a maresia. Quem respirasse esse ar úmido sentir-se-ia leve e renovado. Os olhos se fechariam para melhor saborear a restauração do corpo e se abririam em seguida para sazonar a mente com a imagem crepitante do fogo de fim de tarde.
Queimando o dia até restar as cinzas da noite, o Sol dizia adeus àquele corpo humano que estava prestes a perder a vida.

***

Só o olho humano pode olhar para a natureza e sonhar. Sobre um dos tantos e, por isso mesmo, já comuns, milagres da Natureza, o olhar humano produzia o devaneio de uma ficção, produzia a beleza que há nas relações entre coisas diferentes, produzia metáforas, produzia poesia.
Mas nenhuma poesia poderia salvar sua vida. Nenhum milagre da Natureza teria poder para mudar o que iria acontecer em breve, logo que uma idéia se concretizasse. Somente a idéia teve poder sobre sua vida. Uma idéia fixa; mais fixa do que a de Brás Cubas, mais tácita do que a vontade de Peri em ver Cecília feliz e talvez mais tola do que qualquer axioma pensado pelo ser humano.
E na busca de ordenar o caos, o ser humano dá luz a uma nova idéia, pensando que um dia porá sua ordem em tudo; contudo, inúmeras vezes se deparando com sua própria desorganização e sua incapacidade de organização.
Vendo especificamente esse humano que se encontrava reclinado na cadeira de rede, olhando o céu num fim de tarde, à beira da praia; com sua blusa branca de sarja, e seu short azul de tactel; com o cabelo castanho-claro, liso, a pele avermelhada pela vida em orla, o talhe atlético, o semblante calmo e meditativo de um homem de 30 anos a perder-se em divagações; e vendo uma praia de areia fina que continha somente a habitação desse homem. Quem visse tudo isso não teria motivos pra pensar que ele morreria em breve. Não poderia pensar que ele cometeria suicídio, às 18 horas.
A vida desse homem e os motivos que o levaram a pegar uma arma e caminhar para o mar, assim como o Sol caminhava para o poente, com o cuidado de não molha-la; colocar a arma em sua boca; fechar os olhos, produzindo uma pequena lágrima (ou foi talvez uma gota de água do mar que respingou em sua face?) e matar-se com um só tiro... Isso não interessa. Seria demasiado enfadonho para contar e demasiado enfadonho para conhecer. Depois que se encontra a morte, a vida perde o quê de importante e de especial...
O Sol já se pôs há algum tempo...