Precisamente às 21:00h ele abriu vorazmente a porta de seu quarto. Estava tomado por uma consternação equiparável ao olhar de um recém nascido após a divina palmada dada por um obstetra qualquer (o que hoje em dia não se faz). Irrompia caminho por entre as moléculas de ar, qual Moisés abrira fugitivamente o mar vermelho.
Enfim, após ter trancado a porta e as janelas, trocado a roupa, ligado o ventilador, pondo-o em uma direção oportuna, após ter molhado o cabelo, consumando, com uma meticulosidade cotidiana, seu roteiro; atirou-se debaixo da cama com o rosto voltado para o chão, com o rosto tocando o chão, que estava um pouco úmido, talvez devido à chuva que insistia em cair desde o começo da tarde.
Começou a chorar, impassivelmente: seu rosto não se transmutara, não ganhara as feições retorcidas, quais se encontram num riso. Não! Seu olhar estava fixo no pé da cama; que não era pé da cama, nem cama, nem madeira, nem metonímia, nem metáfora, nem catacrese; era apenas um ponto em que seu olhar absorto repousou, sem repousar concretamente.
Sua íris, assim estática, excitava à contemplação: era azul-celeste acinzentada, rajada em volta da pupila por dois círculos, um vermelho, mais interno e mais espesso, e outro amarelado, mais externo e mais delgado. Tinha olhos de Capitu, mas não olhar de Capitu.
Permaneceu chorando, estático, por dois mil anos, o que equivale em termos cronológicos da terra a dois minutos. Depois fechou os olhos e adormeceu por mais cento e vinte mil anos, ou seja, 2h terrestres de não sei que raciocínio humano.
As lágrimas já haviam evaporado, mas o caminho de sal permanecia, de todas as formas perceptíveis, em seu rosto.
Talvez fosse a sensação térmica dada pelo chão úmido, ou outra sutileza qualquer da vida, que deu forma ao sonho dele. Sonhava que tocava um vale coberto de neve, não tocava pedaço do vale que era concernente ao tamanho de sua mão: ele tocava todo o vale, embora sua mão fosse do mesmo tamanho de sempre. E à medida que acariciava a neve ele se tornava neve, não de uma forma ontológica ou transcendente, ele apenas congelava: seu corpo se cristalizava dos pés à cabeça. Estava feliz agora, pois nesse estado não havia dor, não havia responsabilidade, não havia medo, não havia erro, não havia paixão, não havia vontade, não havia, enfim, vida... Tudo era a permanência de ser gelo imutável. Coisas de sonho: quereres da vida imaginativa.
Às 23:00, acordou. Saiu debaixo da cama, trocou a roupa, desligou o ventilador, penteou os cabelos, abriu uma gaveta do criado mudo e tirou um papel amarelado pelo tempo. Começou a buscar com o olhar um número: 22:03. Era o registro da maternidade onde ele nascera, às 22:03h.
De repente ouviu uma voz:
– Você está aí meu filho? Todos estão esperando para cantarmos os parabéns.
Ele respondeu:
– Já vou...
A voz do lado de fora ia se transformando em passos que se distanciavam pouco a pouco...
Aproximou-se da janela – estava no 8º andar –, olhou o céu estrelado, suspirou, como se fizesse amor com a noite e com o vento simultaneamente, depois pulou da janela, num desejo incontrolável de ser neve.
Quem sou eu
- "Ilhas de felicidade triste" (Cyrulnik)
- "On a wire between will and what will be" (Trecho da música "Maniac" do filme "Flashdance")
sexta-feira, 30 de novembro de 2007
Assinar:
Postagens (Atom)