Quem sou eu

"On a wire between will and what will be" (Trecho da música "Maniac" do filme "Flashdance")

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Visão e Paladar

Abriu os olhos. Respirou fundo. Acordou. O corpo ainda mole deixou-se estar sobre o leito.

De repente veio a fome, mas atingiu apenas o ventre. Levantou-se para saciá-la. Na cozinha contígua ao quarto, que era contíguo à sala, formando o polígono único do seu apartamento, lá havia frutas de aparência fresca. Todo o esplêndido da cor dos morangos, dos mamões, das laranjas, das bananas, dos pêssegos, das mangas... Toda essa cor, ao toque de sua língua, perdia o esplendor e ganhava a ordinaridade de matéria sem gosto. Matéria bela e sem gosto.

Depois de saciada a fome do ventre, voltou à molência de corpo sobre o leito.

Na molência dormente do leito esforçou-se para resgatar a imagem que vira antes de abrir os olhos. Conseguiu! Pegou em lápis, tinta, pincéis, tela e memória para, durante aquele fim de madrugada, representar em imagem a imagem representada em seu sonho. Hora e minutos depois via na tela um rosto feminil, de traços finos, aparência alva, olhos cor de azul celeste, cabelos cortados rente ao crânio... cabelos de loiro angelical; feições graves, austeras; pele suave... Uma imagem linda, contudo pura representação matemática da arte do seu sonho.

O rosto na tela lhe parecia uma das frutas que comera.

De repente se achou revirando álbuns que estavam no criado mudo ao lado de seu travesseiro. Encontrou a fotografia que procurava: uma foto de sua mãe aos 10 anos de idade.

Cotejo-a com o quadro e sorriu Um sorriso estranho posto que inefável.

Como a alvorada já raiava, foi possível ir à janela do apartamento e ver o mausoléu de sua família no cemitério do outro lado da rua.

Sentiu vontade de ser como sua mãe: matéria de sonho; sem gosto e colorida.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

A noiva

Ficarei ridícula após abertas estas sacras portas.
Prefiro este lado profano
onde meu pai é minha segurança e guia:

lá dentro não terei meu pai a me apoiar
no longo tapete vermelho,
trapézio temerário onde a entrar me atrevo.

Ficarei ridícula, nua e vivificadoramente espantada
após abertas as portas
do ventre materno em que me encontro:

lá fora não terei a doce irresponsabilidade de agora
não terei o calor materno
no longo fio da vida que a entrar me atrevo.

Ficarei ridícula com pernas, bunda e cabelo;
prefico o achonchego do nada em que me encontro
à longa jornada pelos canais:

lá dentro terei formação física;
serei matéria e algo mais,
serei desesperadoramente algo ou alguém!

quarta-feira, 4 de junho de 2008

PENSAMENTOS HIPNAGÓGICOS

Dormir me faz bem!
É o momento em que não penso
(em) coisas complicadas...
Dormir é quase um lugar em que encontro dignidade...
Seria esse lugar,
Se eu dormisse pra sempre...

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Cacos

São tantos os cacos do nosso amor
Que tomando-os nas mãos
Compõem uma grave imagem:
A qual, de agora em diante,
É o meu ídolo, a qual adoro
Como se fosse meu próprio Deus: Tu!

Ó minha deusa, já foram anos
Apenas a olhar para esta
Tua estátua sacra e bela!
Virão ainda décadas,
Séculos, milênios, épocas, eras
Tempos infindos, sem realmente te ver?

Queiras tu, deusa bela,
O que quiserdes e assim eu
O farei. Esperarei por ti
Na vida e nela te adorarei
Pois não há vida sem ti
Já que és a razão dela...

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

O melhor presente de aniversário

Precisamente às 21:00h ele abriu vorazmente a porta de seu quarto. Estava tomado por uma consternação equiparável ao olhar de um recém nascido após a divina palmada dada por um obstetra qualquer (o que hoje em dia não se faz). Irrompia caminho por entre as moléculas de ar, qual Moisés abrira fugitivamente o mar vermelho.
Enfim, após ter trancado a porta e as janelas, trocado a roupa, ligado o ventilador, pondo-o em uma direção oportuna, após ter molhado o cabelo, consumando, com uma meticulosidade cotidiana, seu roteiro; atirou-se debaixo da cama com o rosto voltado para o chão, com o rosto tocando o chão, que estava um pouco úmido, talvez devido à chuva que insistia em cair desde o começo da tarde.
Começou a chorar, impassivelmente: seu rosto não se transmutara, não ganhara as feições retorcidas, quais se encontram num riso. Não! Seu olhar estava fixo no pé da cama; que não era pé da cama, nem cama, nem madeira, nem metonímia, nem metáfora, nem catacrese; era apenas um ponto em que seu olhar absorto repousou, sem repousar concretamente.
Sua íris, assim estática, excitava à contemplação: era azul-celeste acinzentada, rajada em volta da pupila por dois círculos, um vermelho, mais interno e mais espesso, e outro amarelado, mais externo e mais delgado. Tinha olhos de Capitu, mas não olhar de Capitu.
Permaneceu chorando, estático, por dois mil anos, o que equivale em termos cronológicos da terra a dois minutos. Depois fechou os olhos e adormeceu por mais cento e vinte mil anos, ou seja, 2h terrestres de não sei que raciocínio humano.
As lágrimas já haviam evaporado, mas o caminho de sal permanecia, de todas as formas perceptíveis, em seu rosto.
Talvez fosse a sensação térmica dada pelo chão úmido, ou outra sutileza qualquer da vida, que deu forma ao sonho dele. Sonhava que tocava um vale coberto de neve, não tocava pedaço do vale que era concernente ao tamanho de sua mão: ele tocava todo o vale, embora sua mão fosse do mesmo tamanho de sempre. E à medida que acariciava a neve ele se tornava neve, não de uma forma ontológica ou transcendente, ele apenas congelava: seu corpo se cristalizava dos pés à cabeça. Estava feliz agora, pois nesse estado não havia dor, não havia responsabilidade, não havia medo, não havia erro, não havia paixão, não havia vontade, não havia, enfim, vida... Tudo era a permanência de ser gelo imutável. Coisas de sonho: quereres da vida imaginativa.
Às 23:00, acordou. Saiu debaixo da cama, trocou a roupa, desligou o ventilador, penteou os cabelos, abriu uma gaveta do criado mudo e tirou um papel amarelado pelo tempo. Começou a buscar com o olhar um número: 22:03. Era o registro da maternidade onde ele nascera, às 22:03h.
De repente ouviu uma voz:
– Você está aí meu filho? Todos estão esperando para cantarmos os parabéns.
Ele respondeu:
– Já vou...
A voz do lado de fora ia se transformando em passos que se distanciavam pouco a pouco...
Aproximou-se da janela – estava no 8º andar –, olhou o céu estrelado, suspirou, como se fizesse amor com a noite e com o vento simultaneamente, depois pulou da janela, num desejo incontrolável de ser neve.

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Soleil

O pôr-do-sol queimava o céu que estava nublado. E cada nuvem era uma labareda. O mar também estava incendiando e o balanço das vagas tinha o ritmo do balanço das chamas de uma grande fogueira.
Tudo estava repleto dessa cor ígnea, mas não havia calor. Pelo contrário, o que havia era uma grande sensação de frescor produzida talvez pela brisa que semeava a maresia. Quem respirasse esse ar úmido sentir-se-ia leve e renovado. Os olhos se fechariam para melhor saborear a restauração do corpo e se abririam em seguida para sazonar a mente com a imagem crepitante do fogo de fim de tarde.
Queimando o dia até restar as cinzas da noite, o Sol dizia adeus àquele corpo humano que estava prestes a perder a vida.

***

Só o olho humano pode olhar para a natureza e sonhar. Sobre um dos tantos e, por isso mesmo, já comuns, milagres da Natureza, o olhar humano produzia o devaneio de uma ficção, produzia a beleza que há nas relações entre coisas diferentes, produzia metáforas, produzia poesia.
Mas nenhuma poesia poderia salvar sua vida. Nenhum milagre da Natureza teria poder para mudar o que iria acontecer em breve, logo que uma idéia se concretizasse. Somente a idéia teve poder sobre sua vida. Uma idéia fixa; mais fixa do que a de Brás Cubas, mais tácita do que a vontade de Peri em ver Cecília feliz e talvez mais tola do que qualquer axioma pensado pelo ser humano.
E na busca de ordenar o caos, o ser humano dá luz a uma nova idéia, pensando que um dia porá sua ordem em tudo; contudo, inúmeras vezes se deparando com sua própria desorganização e sua incapacidade de organização.
Vendo especificamente esse humano que se encontrava reclinado na cadeira de rede, olhando o céu num fim de tarde, à beira da praia; com sua blusa branca de sarja, e seu short azul de tactel; com o cabelo castanho-claro, liso, a pele avermelhada pela vida em orla, o talhe atlético, o semblante calmo e meditativo de um homem de 30 anos a perder-se em divagações; e vendo uma praia de areia fina que continha somente a habitação desse homem. Quem visse tudo isso não teria motivos pra pensar que ele morreria em breve. Não poderia pensar que ele cometeria suicídio, às 18 horas.
A vida desse homem e os motivos que o levaram a pegar uma arma e caminhar para o mar, assim como o Sol caminhava para o poente, com o cuidado de não molha-la; colocar a arma em sua boca; fechar os olhos, produzindo uma pequena lágrima (ou foi talvez uma gota de água do mar que respingou em sua face?) e matar-se com um só tiro... Isso não interessa. Seria demasiado enfadonho para contar e demasiado enfadonho para conhecer. Depois que se encontra a morte, a vida perde o quê de importante e de especial...
O Sol já se pôs há algum tempo...

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Vem já!

Um dia vou escrever pra você aquelas palavras dentro de mim e que não digo!
Um dia vou te dar aquele cartão de aniversário que tanto prometi!
Um dia vou ser aquela pessoa que você não gostaria de amar; mas você me amará(?)!
Um dia o Sol nascerá e perceberei que ele existe!
Um dia... Um dia eu vou começar!