Abriu os olhos. Respirou fundo. Acordou. O corpo ainda mole deixou-se estar sobre o leito.
De repente veio a fome, mas atingiu apenas o ventre. Levantou-se para saciá-la. Na cozinha contígua ao quarto, que era contíguo à sala, formando o polígono único do seu apartamento, lá havia frutas de aparência fresca. Todo o esplêndido da cor dos morangos, dos mamões, das laranjas, das bananas, dos pêssegos, das mangas... Toda essa cor, ao toque de sua língua, perdia o esplendor e ganhava a ordinaridade de matéria sem gosto. Matéria bela e sem gosto.
Depois de saciada a fome do ventre, voltou à molência de corpo sobre o leito.
Na molência dormente do leito esforçou-se para resgatar a imagem que vira antes de abrir os olhos. Conseguiu! Pegou em lápis, tinta, pincéis, tela e memória para, durante aquele fim de madrugada, representar em imagem a imagem representada em seu sonho. Hora e minutos depois via na tela um rosto feminil, de traços finos, aparência alva, olhos cor de azul celeste, cabelos cortados rente ao crânio... cabelos de loiro angelical; feições graves, austeras; pele suave... Uma imagem linda, contudo pura representação matemática da arte do seu sonho.
O rosto na tela lhe parecia uma das frutas que comera.
De repente se achou revirando álbuns que estavam no criado mudo ao lado de seu travesseiro. Encontrou a fotografia que procurava: uma foto de sua mãe aos 10 anos de idade.
Cotejo-a com o quadro e sorriu Um sorriso estranho posto que inefável.
Como a alvorada já raiava, foi possível ir à janela do apartamento e ver o mausoléu de sua família no cemitério do outro lado da rua.
Sentiu vontade de ser como sua mãe: matéria de sonho; sem gosto e colorida.